O sobrepeso é reconhecidamente um grande fator de risco para inúmeras doenças, em especial, as cardiovasculares. As conseqüências do sobrepeso e da síndrome metabólica podem ser terríveis também para outros órgãos e tecidos: fígado (esteatose hepática), rim (nefropatia), olhos (retinopatia), gônadas (hipogonadismo), entre outros. Hipócrates (460-370 a.C) já dizia: “A corpulência não é apenas uma enfermidade em si, mas o prenúncio de outras. A morte súbita é mais comum naqueles que são naturalmente gordos do que nos magros.“

A síndrome metabólica (SM) corresponde a um conjunto de doenças cuja base é definitivamente a resistência insulínica. Pela dificuldade de ação da insulina, decorrem as manifestações que podem fazer parte da síndrome. Os principais fatores de risco da SM são o sobrepeso, a obesidade e o sedentarismo. Por isso, o critério mais importante para o diagnóstico da SM é a cintura abdominal que segundo o novo guia da ABESO fica em no máximo 90cm para os homens e 80cm para as mulheres. Outros critérios também fazem parte da SM sendo necessário 2 para se fechar o diagnóstico, são eles:

. Triglicérides ≥150mg/dl ou tratamento
. HDL <40mg/dl (Homens); <50mg/dl (Mulheres)
. Pressão arterial sistólica ≥130 ou Pressão arterial diastólica ≥85mmHg ou tratamento
. Glicemia de jejum ≥100 mg/dl ou diagnóstico prévio de diabetes

A ABESO ainda considera o IMC fundamental para avaliação dos pacientes com sobrepeso: 
. <18,5 (baixo peso)
. 18,5-24,9 (eutróico)
. 25-29,9 (sobrepeso)
. 30-39,9 (obesidade)
. >40 (obesidade grave)

No entanto, outros métodos podem auxiliar o medico na individualização do paciente. Um exemplo é a bioimpedância, ou impedanciometria elétrica baseia-se no fato do corpo humano ser composto por água e íons condutores elétricos (o tecido adiposo impõe resistência a passagem da corrente elétrica ao passo que o tecido muscular esquelético, rico em água, é um bom condutor).

No exame de bioimpedância, uma corrente elétrica alternante de baixa intensidade é conduzida através do corpo. A impedância é calculada com base na composição de dois vetores: a resistência e a reatância (a resistência é a restrição ou a voltagem perdida na passagem da corrente elétrica através do corpo e depende da quantidade de água presente ao passo que a reatância é outra força resistiva caracterizada pelo armazenamento da corrente durante a passagem pelas membranas e pelo meio intracelular). O exame deve ser realizado com jejum de pelo menos 4 h, idealmente sem atividades físicas por 12 horas, com abstinência alcoólica por 24 horas, preferencialmente sem uso de diuréticos por 7 dias, e as mulheres devem realizar entre o 7º e 21°dia do ciclo menstrual.

Estou acima do peso e acho que tenho síndrome metabólica, o que devo fazer?

Primeiro fundamental entender que primeiro passo tratar a SM é procurar um medico. Mudanças no estilo de vida com alimentação balanceada e exercícios físicos todos já sabemos que são as mais importantes, portanto fundamentais. Mas outras mudanças podem trazer uma ajuda extra para portadores da SM:

1 – Diminuir o estresse excessivo! O estresse crônico causa hiperatividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, que leva a feedback negativo no núcleo paraventricular, levando a produção de endocanabinóides que têm efeito no núcleo accumbens levando a busca de comida palatável (alimentos doces e calóricos) que tem propriedades de recompensa poderosas no sistema hedônico não homeostático, influenciando o comportamento e levando a maior acúmulo de gordura visceral.

2 – Ter um sono de qualidade com mínimo de 7h! Privação do sono provoca diminuição da secreção de hormônios como: leptina e TSH, aumento dos níveis de grelina e diminuição da tolerância à glicose em seres humanos, incluindo aumento da fome e do apetite. Estas mudanças são consistentes com a privação de sono crônica levando ao aumento do risco de obesidade.

Porque um sono de qualidade é tão importante na prevenção da síndrome metabólica?

A melatonina secretada na glândula pineal é um hormônio fundamental que funciona como um cronobiótico, desempenhando um papel importante na regulação da ordem temporal interna circadiana. Evidências experimentais demonstram que a melatonina é necessária para a síntese adequada, secreção e ação da insulina. Melatonina atua regulando a expressão de GLUT4 e da fosforilação do receptor de insulina e de substratos intracelulares da via de sinalização de insulina. A melatonina é responsável, em parte, pela distribuição diurna de processos metabólicos para que a fase de atividade alimentar esteja associada com alta sensibilidade à insulina durante o dia (na vigência de luz e na ausência de melatonina), e a fase de jejum esteja sincronizado com a resistência à insulina durante a noite (na ausência de luz com secreção de melatonina pela pineal). A redução na produção de melatonina, tal como durante o envelhecimento, o trabalho em plantões e turnos ou ambientes cada vez mais iluminados durante a noite induz a resistência à insulina, intolerância à glicose, perturbações do sono, e a desorganização circadiana metabólica caracteriza um estado de cronoruptura que leva à síndrome metabólica e obesidade.

Porque o tratamento da SM deve ser individualizado para cada pessoa?

objetivo do tratamento é melhorar a saúde do paciente. Embora a perda de peso seja importante, não se deve ter o foco do tratamento na perda de peso corporal, por si só. Reeducação alimentar, exercício físico e modificação comportamental (estresse e sono, por exemplo) devem ser incluídas em todo tratamento da SM. Na presença de falência da intervenção na mudança de estilo de vida ou em pacientes com uma história prévia de falência com tentativas de dieta com restrição calórica e aumento de atividade física, o tratamento medicamentoso deve ser indicado na presença de sobrepeso associado a fatores de risco. Procure sempre o acompanhamento médico.

Por: Dr. Guilherme Renke