Acordar. Tomar banho. Despertar os filhos. Preparar o café da manhã. Levar os filhos à escola e ir trabalhar. Mas antes, checar o celular e ver que, dentre as várias mensagens, uma é para lembrar que o relatório deve estar pronto às 10h. Trânsito até o trabalho. E-mails diversos para responder. O dia acabou de começar, mas você já fez muito. Este é o cotidiano de grande parte dos brasileiros. A rotina acelerada não abre espaço para uma pausa, e isso vem prejudicando a saúde mental da população: o Brasil está com altas taxas de depressão e transtorno de ansiedade.

No meio do século passado, estudiosos acreditavam que o avanço da tecnologia faria com que as pessoas tivessem tanto tempo livre que não saberiam o que fazer com ele. Em 2018, a realidade é completamente diferente.

— Por causa da internet, acabamos recebendo uma quantidade de informações muito grande e nos sentimos na obrigação de dar conta dessa enxurrada. O benefício da internet, que é o amplo acesso, acaba provocando efeito inverso — diz a psicóloga Renata de Azevedo da Clínica Nutrindo Ideais.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, o Brasil é o país com a maior taxa de pessoas que sofrem de algum transtorno de ansiedade — 9,3%, o que equivale a mais de 18 milhões de brasileiros — e o quinto no ranking da depressão — 5,8% da população, afetando 11 milhões. Já no acesso à internet, o Brasil está em quarto, de acordo com dados Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento.

— Sabemos que há uma relação muito grande entre o uso de tecnologia e o desenvolvimento de transtornos de ansiedade. Existem alguns aplicativos, como o Headspace, que trabalham com pausas esquemáticas para que a pessoa faça um relaxamento e até uma meditação. É para se desligar de tudo, pois não adianta você parar e se conectar ao celular — diz o professor Jorge Sobrinho, coordenador do Psicologia da Unisuam.

 

“Não fazer nada deve ser uma escolha”
Renata de Azevedo, Psicóloga da Clínica Nutrindo Ideais

 

Por que é tão difícil conseguir ficar sem fazer nada?

As pessoas têm muita dificuldade de se desligar. Consequentemente, elas não se conectam com elas mesmas nem com o momento presente que estão vivendo. É muito comum vermos pessoas sentadas na mesa de um bar, rodeadas de amigos, mas mexendo no celular. Muitas pessoas têm dificuldade de não fazer nada porque acham que deveriam estar produzindo o tempo todo.

E por que não fazer nada é percebido e sentido do como perda de tempo?

Precisamos lembrar que devemos ter tempo de tudo: do trabalho, para a família, para os amigos e para a gente. Todos eles são importantes, inclusive o tempo para não fazer nada. O problema é que, quando a pessoa consegue dedicar esse tempo para não fazer nada, ela passa a ser mal vista. Não fazer nada deve ser uma escolha.

Como a superexposição nas redes sociais pode prejudicar nossa saúde mental?

É aquela história da grama do vizinho ser sempre mais verde… Mas, às vezes, ela é de plástico e ninguém sabe. As pessoas acabam vendo só o que há de bonito na vida do outro. Isso é muito injusto, porque comparam os seus bastidores com os palcos dos outros. Isso faz muito mal, pois as pessoas acham que apenas elas não alcançam o sucesso, o que provoca insegurança e diminui a autoestima.

 

Desconectar-se é uma necessidade

Um dos principais avanços da tecnologia foi na área da comunicação. A criação dos celulares e, posteriormente, dos smartphones tornou possível falar com qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo. Mas esta facilidade de contato tem se mostrado prejudicial quando mal-usada.

— Quando alguém responde instantaneamente a sua mensagem ou curte o que você postou nas redes sociais, seu cérebro cria a expectativa de que esse tempo de feedback (retorno) diminua e você fica ansioso à espera de respostas imediatas — explica o psicólogo Jorge Sobrinho.

Desacelerar e guardar um tempo para se conectar com você mesmo é fundamental, não só para a manter saúde mental, mas também a física. Quando o corpo está estressado e ansioso, aumentam as chances de desenvolvimento de doenças, como as cardiovasculares.

— Nós devemos admitir que precisamos ter um tempo para descansar. Caso contrário não nos permitimos parar em momento algum. Além disso, temos que equilibrar o “estar muito ocupado” e o tempo de lazer. Pois quando não sabemos administrar os dois períodos, ficamos ansiosos, esperando o tempo de descanso, mas quando ele chega, não sabemos o que fazer, e isso também gera ansiedade — finaliza psicanalista Cristiane Maluf Martin.

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Fonte: https://extra.globo.com/noticias/saude-e-ciencia/corpo-precisa-de-momento-de-pausa-para-manter-saude-dizem-especialistas-22785857.html