Não é só para o sono: melatonina pode favorecer a sensibilidade à insulina no tecido adiposo

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O tecido adiposo não é apenas um reservatório de gordura ele é, também, extremamente importante para o nosso metabolismo. Ele é capaz de produzir vários hormônios e peptídeos ativos, tais como: leptina, adiponectina e a vistatina que possuem diversas ações no nosso corpo. Além de produzir essas substâncias, o tecido adiposo está também sob controle de uma ampla gama de hormônios, alguns com atividade predominantemente catabólica (como as catecolaminas e o hormônio do crescimento) e outros com atividade predominantemente anabólica (como a insulina). Outros, como o cortisol, possuem um papel permissivo no metabolismo do tecido adiposo e outros, como os hormônios tireoidianos, são importantes para a lipólise (quebra de gordura).  

 
No entanto, novos hormônios vêm sendo acrescentados nessa lista por desempenharem ações importantes sobre o tecido adiposo, como é o caso da melatonina. A melatonina, conhecida como o “hormônio do sono”, é o produto hormonal da glândula pineal. Um elo funcional entre a glândula pineal e o tecido adiposo se tornou mais evidente após estudos in-vitro envolvendo adipócitos isolados de tecido adiposo incubados com a melatonina, mostrando que este hormônio aumenta a sensibilidade à insulina medida através de testes de captação de glicose. Já outros estudos mostram que a deficiência completa da melatonina leva ao desenvolvimento de resistência à insulina, com redução do conteúdo e da expressão gênica de GLUT4 (transportador de glicose nas células).

 

Mas como a Melatonina poderia atuar no metabolismo da Insulina?

Nos mamíferos, tanto a síntese quanto a secreção da Melatonina ocorrem à noite, sob o controle do nosso “relógio circadiano” localizado dentro do hipotálamo no cérebro. Uma vez sintetizada, a melatonina exerce os seus efeitos através da ligação com seus receptores. Estudos recentes mostram que esses receptores à melatonina dentro das ilhotas pancreáticas seriam acoplados as vias de sinalização envolvidas na modulação tanto da secreção de insulina como da secreção de glucagon. Foi também postulado que a sinalização através dos receptores de melatonina é capaz de aumentar a tolerância sistêmica à glucose através de um efeito mais direto na captação de glucose. De fato, estudos in vitro relataram que a melatonina estimula a captação de glicose tanto no músculo esquelético como no tecido adiposo. Além disso, recentes estudos genéticos com humanos ligam polimorfismos nos receptores de melatonina ao risco aumentado de desenvolver resistência à insulina e diabetes.  


Porque a restrição do sono pode ser prejudicial para ação da insulina?

Diversos estudos mostram que a restrição ou a privação do sono são fatores que contribuem para o desenvolvimento Diabetes tipo 2. Por exemplo, uma meta-análise mostra que o sono curto (<6 h) está associado a um maior risco de desenvolver resistência à insulina. Parece haver uma relação da melatonina com essa resposta secretória da insulina e com aumento da sensibilidade  ao GLP-1 (hormônio gastrointestinal que estimula a secreção de insulina). Assim, demonstrou-se que a exposição noturna prolongada à melatonina beneficiou os efeitos estimulantes provocados pelo GLP-1 suportando a hipótese de que a secreção de insulina pode ser mais sensível aos efeitos do GLP-1 pela manhã. Apesar de promissores, estudos futuros serão necessários para elucidar ainda mais o papel da sinalização da melatonina na regulação dos níveis de glicose no sangue e no metabolismo do tecido adiposo

 

Referências:

1 – Rachel Leproult et al. Beneficial Impact of Sleep Extension on Fasting Insulin Sensitivity in Adults with Habitual Sleep Restriction. Sleep (2015) 38 (5): 707-715

2 – Owino S et al. Melatonin Signaling Controls the Daily Rhythm in Blood Glucose Levels Independent of Peripheral Clocks. PLoS ONE (2016) 11(1): e0148214.

3 – Manuel Gil-Lozano et al. Short-term sleep deprivation with nocturnal light exposure alters time-dependent glucagon-like peptide-1 and insulin secretion in male volunteers. American Journal of Physiology – Endocrinology and Metabolism (2015)

4 – . Alonso-Vale et al. Pinealectomy alters adipose tissue adaptability to fasting in rats. Metabolism 2004b;53:500-6.

5 – Costes S et al. Activation of melatonin signaling promotes β-cell survival and function. Mol Endocrinol 29:682–692,2015.

 

 

Por Dr. Guilherme Renke
Médico atuante na área da Cardiologia e Medicina Desportiva. Formado pela Universidade Estácio de Sá, com pós-graduação em Cardiologia pelo Instituto Nacional de Cardiologia INCL RJ, pós-graduando em Nutriendocrinologia Funcional pela Faculdade Ingá e Endocrinologia pela IPEMED. Fellow e Membro da American Academy of Anti-Aging Medicine, Membro do American College of Sports Medicine, Membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Membro do Departamento de Ergometria e Reabilitação da SBC, e da World Society of Anti-Aging Medicine.